O Caso Ângelo

 

5 de março de 1978, decisão do Campeonato Brasileiro de 1977. Atlético e São Paulo se enfrentam para decidir quem seria o Campeão Brasileiro. Decisão a parte, uma outra guerra foi travada no gramado do Mineirão. Uma guerra suja e covarde. Uma guerra que não foi disputada na bola, mas sim com intimidações, pontapés que não visavam a bola, cotoveladas, socos e etc. Resultado, uma baixa, Ângelo que saiu do gramado do Mineirão com ruptura completa do ligamento colateral externo; ruptura do bíceps femural; ruptura da clápsula externa e do tracto íliotibial. Solução para o caso: cirugia, que foi feita imediatamente: plástica da clápsula do ligamento do tracto íliotibial e uma reinserção dos músculos do bíceps na cabeça do perônio.

Essa contusão aconteceu, depois de uma dividida entre Neca e Ângelo. Maldosamente, o jogador Neca entrou com o pé por cima da bola atingindo a perna do jogador mineiro. Não o bastante, quando ângelo permanecia caido pedindo socorro médico veio chicão e deu um pisão na perna quebrada de Ângelo. O juiz Arnaldo César Coelho - incrivelmente, ou convenientemente- não viu nada dos dois lances


Não vamos ser hipócritas,  todos esses artifícios foram, são e ainda serão usados por diferentes times de futebol para conseguir uma vitória. E cá para nós, que não somos puritanos, são artifícios válidos! Porque em qualquer partida de futebol e principalmente em grandes decisões, o vencedor é aquele que mantém os nervos no lugar, e essas pequenas “artimanhas”  podem levar ao descontrole o adversário e dando um meio-caminho em direção à vitória.

Antes da covardia, Chicão alucinado marcava Ângelo

 

No jogo, o São Paulo foi muito competente, sabia que era inferior tecnicamente ao Galo e soube jogar primeiro para se defender, segundo; para se defender também! No tempo normal e na prorrogação o São Paulo visava os pênaltis. Aliás, os pênaltis eram as intenções da equipe paulista desde a véspera do jogo, quando o técnico Rubens Minelli declarou sua esperança que o jogo fosse decidido nos pênaltis, já que com as chuvas que castigavam Belo Horizonte naquele fim-de-semana prejudicavam em demasia o leve e rápido time do Atlético.

Ângelo recebe a entrada desleal de Neca e fica caído no Gramado. Depois Chicão dá um pisão na perna quebrada de Ângelo.

 

Mas o que Neca, e depois Chicão fizeram com Ângelo, foi pura e simplesmente COVARDIA! Foi tanta que depois todos os agressores tentavam se eximir de culpa ou qualquer intenção de fazer o que fizeram. Como Podemos ver nessas declarações:

Rubens Minelli, Técnico:

“Eu sou treinador há vários anos, e nunca pedi a qualquer atleta ou equipe que eu comandei jogar dessa maneira!”

E prosseguia, invocando testemunhas – entre os quais o jogador Frazão, um ex-comandado de Minelli que fazia parte do elenco atleticano na época - em um inflamado discurso aos repórteres.

Neca, o ponta-de-lança que criou fama de pipoqueiro, covarde, estava no limite da tensão. Não se cansava de  repetir que tinha a consciência tranqüila , que jamais pretendia ferir um companheiro de profissão. E ia mais além, mandando um recado via televisão.

“ Olha Ângelo, eu lamento muito o que aconteceu. Lamento ainda mais por ter sico em uma jogada em que a bola foi dividia comigo. Na segunda, depois do jogo, tentei telefonar para a Santa Casa, conversar com você. Não consegui, estava sempre ocupado. Pode ter certeza de que não tive a menor intenção de lhe machucar. Quanto ‘as declarações, me acusando de culpado, lamento, mas acho que você está afetado emocionalmente.”

Chicão, ao mesmo tempo em que se defendia da covardia caia em contradição:


“Jogo duro, mas na bola. Sou jogador forte. Eu não sabia que o Ângelo estava machucado, no momento em que lhe dei um pisão. Eu disse: levanta rapaz, pára com encenação! Pensa que eu machucaria um colega de propósito?”

No dia seguinte a essa declaração, Chicão desmentia veementemente o que dissera no dia anterior, mesmo com o VT de sua deslealdade sendo exibida em rede nacional de televisão.


Enquanto isso, na Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte estava Ângelo no nono andar no quarto 906, Ângelo estava em uma cama após ser operado pelo Dr. Neylon Lasmar e com a previsão de voltar a jogar somente depois de um ano. O quadro era de filme de terror.Um homem de 1,64 que sob efeito de tranqüilizantes acordava gritando e assustava todos a sua volta.

 

Um repórter da Revista Manchete Esportiva narrou uma cena que presenciou:

-Está sentindo dor Ângelo? –enquanto o jogador tenta erguer-se  na cama.
-Eu vi tudo de novo.....tudo de novo!(Ângelo)
-Tudo de novo como, Ângelo?
-É um pesadelo: eu vi o Neca vindo com a chuteira na direção da minha perna. Estava tudo meio cinza, mas eu vi a chuteira do Neca me pegando, do jeito que aconteceu....
-E, agora, Você sente dor?
-Sinto. Dói muito, como deoeu na hora.
-Você não via a torcida no pesadelo, Ângelo?
-Não, nem a grama eu via. Era tudo cinza...
-E o Chicão, você vê o Chicão no pesadelo?
-Não, o Chicão não, só o Neca...

O mais irônico, é que isso foi justamente acontecer com o Ângelo. Ele que era chamado de “Padre” por seus companheiros de time, por ser muito católico. Na véspera da decisão do Campeonato Nacional contra o São Paulo, na concentração do Atlético, todos ouviam os tiros do filme “Crime na Madrugada”, em exibição para os jogadores. De repente, no meio do tiroteio, de uma sala ao lado, vinha o som de uma voz lendo trechos da Bíblia, seguida por duas outras vozes. Era Ângelo, acompanhado do goleiro João Leite e do ponta-direita Serginho. Os três atletas oravam para Deus protegesse a nós e aos nossos adversários durante o jogo.

Depois de alguns dias internado, Ângelo confortado por companheiros de time e um número incalculável de visitas de torcedores foi arrefecendo sua indignação dia após dia. A essa altura ângelo pedia que tudo fosse esquecido, que não poderia perdoar seus algozes pois não tinha poderes para isso somente Deus poderia faze-lo. E ao ser perguntado sobre o lance declarou:

“O Neca foi desleal, sabe? O Chicão também. Eu não posso entender como é que dois profissionais podem fazer o que eles fizeram a um companheiro que ganha a vida come eles. Quando Chicão me pisou, me disse  uma coisa  que não consigo entender: -Tome, isto é pra você aprender a ser covarde!-. Covarde, Eu? Por quê? O que é que eu fiz de errado naquele jogo? O que fiz contra ele? Esles estava totalmente errados. Mas não quero vingança. Eu não espqueceri o que aconteceu,porque, agora estou prevenido contra tudo. Não posso perdoa-los porque não sou ninguém para perdoar.”

Enquanto isso no Rio de Janeiro, o também médio-volante Zé Mário, presidente da Associação Profissional dos Atletasde Futebol, concorda com a tese de ângelo. E ia mais além, admitindo que Neca e Chicão estão definitivamente marcados:

-Qual é a condição psicológica deles dois? Com essa acusação nas costas, em todo jogo que entrarem, o adversário vai ficar em cia, vai fica com um olho na bola e outo na perna do Chicão e do Neca.  No meio de toda essa celeuma o promotor de justiça Severino Flores Pereira da 18ª Promotoria de Justiça de Belo Horizonte, pedia oficialmente abertura de inquérito policial contra os  jogadores Neca e Chicão.

 

Ângelo, 6 meses sem cortar o cabelo e barberar. Duro e longo tempo de recuperação.

 

Com a  contusão e a operação, Ângelo ficou afastado dos treinamentos por mais de 6 meses. Em agosto de 1978, Ângelo voltou a se exercitar fisicamente. E em outubro  voltou a jogar. Durante esse tempo pensou que jamais iria voltar a jogar. Imaginou que tudo o que estava fazendo era em vão. A fama de padre ficou ainda maior, pois a partir desse acontecimento passou a orar ainda mais. Como meio de externar seu sofrimento ficou todo esse tempo sem cortar os cabelo e fazer a barba. E uma vez declarou o que mais pareceu um testemunho de fé do que qualquer outra coisa:

“Sabe, através da oração a gente alcança uma graça muito forte. Eu aprendi isso com o João Leite. Fui algumas vezes com ele ‘a sua Igreja. Sou católico,, mas acho que não tem nada a ver- somos todos cristãos. O João Leite é muito cristão. Eua inda vou ser cristão come ele é. Orando, agente consegue a paz e a fé para se aproximar mais de Deus e  consegue encontrar mais esperança. Não penso mais que não vou voltar a jogar futebol. Claro que vou voltar! Agora tenho certeza. Não é só uma questão de fazer força para acreditar. Tenho certeza de que vou voltar.!”

 

E Ângelo voltou.  O jogo da sua volta aconteceu em 12 de outubro do mesmo ano na partida contra o Uberlândia-MG. E quando chutou pela primeira vez na bola declarou: “Deus me fez voltar!”

 

 

 

"Só mesmo alguém com uma força de vontade igual à do Ângelo pode levar até o fim tal tratamento. E, por seguí-lo à risca, Ângelo ficou o tempo mínimo, dentro da faixa prevista de seis a dez meses." Afirmou o então médico do Atlético, Dr. Neylor Lasmar. Em 1979, seu último ano como jogador do Atlético  foi campeão mineiro de 1979 jogando o fino da bola.

Quanto a Neca e Chicão, foram perdoados até mesmo pela diretoria do Atlético. Que em 1980 contratou o médio-volante para ser o homem mal do Galo Rubens Minelli foi contratado pelo Galo em 1984 ficando poucos meses. Já Neca nunca vestiu a camisa do Atlético.

Ângelo deixou o Atlético em 1980, com a chegada de Chicão, foi jogar no Guarani de Campinas, depois, Fluminense, Ponte Preta, Sport e Santa Cruz onde encerrou sua carreira. Após encerrar a carreira voltou aos estudos e concluiu o curso de Direito pela Universidade de Itaúna.

Foto de 2006, quando trabalhava nas categorias de base do Atlético com auxiliar de Marcelo Oliveira


Ângelo faleceu no dia 02  de agosto de 2007, vítima de um ataque cardíaco. Em seu sepultamento, milhares de pessoas estiveram presentes no enterro. Entre os mais emocionados era Marcelo Oliveira que foi companheiro de clube desde as categorias de base do Galo e na época trabalhava com ele como auxiliar técnico da equipe de juniores. Outro companheiro muito  emocionados no velório era o ex-goleiro alvinegro e atual deputado estadual João Leite. Companheiro por mais de 12 anos no Atlético, o político lembrou da luta do amigo com as seguidas contusões. “Ele deixa para mim o exemplo de perseverança e força de vontade. Foi um jogador que teve contusões mais graves e nunca se abateu. Infelizmente, não teve a chance de recuperar do coração, porque, se tivesse, com certeza ele superaria mais um obstáculo”, declarou o deputado extremamente abatido.

Foto de seu velório. Consternação na Cidade do Galo.

Tudo sobre Ângelo:

 

Angélio Paulino de Souza “ÂNGELO”

 

Posição: Armador
Data de Nascimento: 31/05/1953
Cidade: Onça do Pitangui-MG
Data de Falecimento: 02/08/2007
Cidade: Itaúna-MG
Período no Atlético: 1970-1973 e 1975-1980
Primeiro jogo: 14/11/1970
Atlético 1x0 Grêmio-RS – Taça de Prata/1970
Último Jogo: 25/05/1980
Atlético 3x0 Internacional-RS – Campeonato Brasileiro/1980
Clube Anterior: Categoria de Base do Atlético
Clube Posterior: Guarani-SP
No Atlético: Foram 238 Jogos e 12 Gols Marcados.
Títulos pelo Atlético:
Campeão Brasileiro – 1971
Campeão da Taça Belo Horizonte – 1971 e 1972
Campeão da Taça Minas Gerais – 1975, 1976 e 1979
Campeão Mineiro – 1976, 1978 e 1979
Sua carreira:
Categoria de Base: Itaú de Minas-MG e ATLÉTICO (1967-1969).
Profissional: ATLÉTICO (1970-1973); Nacional-AM; ATLÉTICO (1975-1980); Guarani-SP; Fluminense-RJ; Ponte Preta-SP; Santa Cruz-PE e Sport-PE.

Participou de 03 dos 27 jogos da campanha do título brasileiro de 1971.

 

 Ângelo atuou pela seleção brasileira no tradicional Torneio de Cannes, na França, em 1972. No mesmo ano, o ex-jogador teve outra participação com a camisa verde-e-amarela, dessa vez, nos Jogos Olímpicos de Munique, na Alemanha. Casado pela segunda vez, ele deixou a mulher Júlia e três filhos.

Fonte Revista Placar números:434 de 18 de agosto de 1978 e 1247 de setembro de 2002. Revista Manchete Esportiva númoro 22. Jornal "O Estado de Minas" Fontes na web: Enciclopédia Galo Digital, O canto do Galo e Wiekipedia

 



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